
Construir não é fácil.
Eu, que sempre fiz tudo meio sem querer, nunca tinha me dado conta. Por muitos 40 anos as dificuldades se esgueiravam de mim. Árduo era sentir. As pedreiras sólidas e físicas se afastavam pra que eu passasse. Eu não as via.
Agora cada pedra cai forte nas minhas mãos. Ombros, costas, cabeça, ventre. Parece que cada palavra virou um tijolo. As palavras que só doíam nos meus olhos agora pesam em todo o corpo físico.
Tomando café nessa cozinha, fico pensando-sonhando porque não posso simplesmente ter uma casinha como a da xícara inglesa à minha frente. Só quero do mundo sorrir em paz. E aí me deparo que tudo precisa ser construído para existir, acabou-se a mágica solução. E construir é lento, cansativo, dolorido.
Não sou construtora, não é da minha natureza. Sou contemplativa. Ou seja, estou forçando o que em mim não é natural.
Cada micro etapa concluída me veste de contentamento e alívio. Aí suspiro, descanso, me orgulho, sorrio. Tomo um banho pra limpar todo o suor da tarefa e o medo, tomo uma cerveja como um troféu gelado de estar minimamente me reinventando.
Se olhar muito adiante, tenho vertigem e me atrapalha o desânimo pelo medo mesmo. Sei que foi minúsculo o que fiz, a ação.. mas o substantivo é que é minha palavra, e transmutá-lo em verbo é um passo a passo que, ainda que seja caminhado assim como estou, de-va-gar-e-sem-pre, me deixou mais viva pela descoberta.
Não sei sinceramente ainda se vale a pena, estou testando.. Como não conseguia mesmo ficar no mesmo lugar de sempre e de antes, é essa a tentativa mais próxima!