domingo, 20 de agosto de 2017

debaixo dágua espelho do amor



Paula ‘escreve’ no celular. Eu, na caderneta.

Já nos conhecíamos, e nunca havíamos nos visto.

Paula me abordou no show, pé quebrado, parede de apoio. Eu passava, cerveja na mão, sem paradeiro, espiando Arnaldo Antunes, me emocionando com qualquer coisa que se sinta.

Me emocionei com Paula.

E conversaaaaaamos, apareceu um segurança solícito e uma cadeira. Apareceu um amigo dela legal e mais uma cerveja. Eu saí da conversa e fui pegar uma pra mim. Eu voltei pra conversa, inexplicavelmente em se tratando de mim, que sempre articulo – e uso – rotas de fuga.

Há 18 anos atrás eu pari uma menina de cabeleira preta, linda. Seu nome passou a ser Maria Paula, precisávamos nomear aquele futuro de saudade que viria (certidões de óbito não admitem nome próprio – a burocracia não acompanha a urgência do amor)

Desde então, Paulas são filhas minhas, são mulheres do meu profundo respeito, admiração, cuidado, afeto.

Chamei Paula pra um sarau. Ela disse que viria e escutaria. Eu lhe disse que era assim também que eu achava que poderia. Mas que também sabia que era preciso mais, que era político, sendo pessoal, que nós precisamos falar, ocupar o palco, ouvir nossas vozes no microfone.

Ela disse que se eu falasse, ela também falaria. Eu prometi que falaria. Quero ouvi-la falar.

Paula tem 33 anos, eu tenho 48. Números circulam entre si, na minha vida gerações se encontram e se consideram mutuamente, no amor. Nem sempre conseguimos retomar amores, mas podemos tomar pra nós o que é nosso, de alegria, coragem e afeto.

Paula me afeta.

Ando pelas ruas sozinha de pessoas, embora agora pessoas também me interessem. Mas não tenho construção simplificada pra essa busca, então nem sempre elas estão por perto. Mas volto a dizer para que todas saibam e me acolham e para que eu saiba: pessoas me interessam. Caminhar sozinha é uma conquista! Aprender é um ato político. (eu gosto de ficar só, mas gosto mais de você. andando sozinha eu posso conseguir perceber o quão é bom e especial andar com você, um dia)

Ontem foi uma noite de boas estadias. Chorei ouvindo Arnaldo Antunes. Dediquei uma paixão antiga ao Tempo, mandei-lhe música no meio do show. Ouvi e falei. Senti. Sentei. Tomei cerveja e escrevi na minha caderneta. Re-conheci Paula. Tudo ao acaso, naquele vento do estacionamento ao ar livre, no pátio, na vida.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

hora do almoço





a existência das que escrevem para não sufocar, tomar fôlego para continuar tentando, sentindo, fazendo, da vida que temos à que desejamos aprimoradamente (ou desajeitadamente) ter.
não temos jeito normal para os que passam pela rua enquanto abraçamos árvores, 'não temos jeito' - diriam os que querem nos ver mais com cara de parafuso que de nota musical.
a gente canta, eles nos apertam.
se choramos - e choramos! - eles repreendem e se envergonham por nós.
se sorrimos - no gozo de um poema sentido na pele - eles manipulam o nosso carnaval.

precisamos escrever.
poema, lista de mercado, anotações, declarações de amor e saudade, redação do enem, crônica na academia, ode feminista na porta do banheiro.
tratados obsoletos e amorosos sobre nós que me mudarão ainda hoje - e assim mudarão o mundo, rebeldias adolescentes em plena maturidade, testamento para ser lido depois de matado o amor.

fôlegos.
suspiros.
inalações profundas.
antídotos para um mundo sem ar.
escrever, respirar.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

tum

O coração é um desarrazoado.


Invento firulas para pensar no mesmo pretexto,
perdição de sentir,
permissão pra insistir.

Insisto em mim,
a intenção é boa.

Mas os caminhos que às vezes me ponho a andar,
esses poderiam ser mais suaves,
doer menos os pés, as pernas, os dedos, os braços..

dói-me tudo a caminhar pelos mundos,
só porque o coração não quer esquecer