quinta-feira, 20 de julho de 2017

ponto de árvore



Já eu, tenho saudade
sinto falta, tenho vontades
tenho tanto o que dizer, eu, que não gosto muito de falar
mas até do silêncio queria dar notícia

hoje encostei na árvore tão querida e comecei a lamuriar
ela, meio entediada, pediu que eu falasse de adiante, que olhasse e desejasse o depois
fiquei calada, não soube fazer
ela, firme compreensiva, escutou o sonho que ainda não sabe se dizer, ouviu o que eu sentia
da voz que não saiu, soube do meu coração

passou o ônibus, segui para o até amanhã



terça-feira, 4 de julho de 2017

noite

a ventania arribou o mundo
meu amor já tinha avuado antes
naquela esquina de largo
naquele grito de pouca voz

o telefone ficou mudo,
eu não tinha mais pra quem falar
tinha uma voz que era o choro
pouco se sabe de quem sofre

a árvore requebrada de vento
veio dar na minha varanda
onde a gente se estendia pano colorido
galhos findos
quebrou-se
o amor

domingo, 2 de julho de 2017

do dia



Um dia pra tudo não dá
Pra tudo que sonhamos ser, um dia foi pouco
Um dia não chega a ser o tempo que precisamos para amar
Não dá pra viver tudo, um dia
Nem dá pra entender que acabou
Um dia é pouco
Um dia foi tudo
Se pensas que pode ser diferente, fazes

Um dia
Pra tudo
Não dá

segunda-feira, 26 de junho de 2017

a noite


Hoje eu quero dormir mais sozinha.

Pro lado de fora do quarto, expectativas alheias, vitimismo forçado socialmente.
Fecho a porta do meu quarto; do que tenho, quero ficar só.

Fiz algumas pazes, me reconciliei com mistérios, abrandei ressentimentos, amenizei os adeus.
Aceitei as partidas, ensejo-me inteira.

Durmo só, inteira. O pensamento não está lá, o afago está aqui.

Imagino, num lugar distante, quiçá outro mundo, um marinheiro repousando no mar, no movimento que o mar traz aos sentimentos.
Sou eu. Sou ele.

Aceito minha fé, desconhecida do rumo, do sujeito, do paradeiro.
É quem sou. Gosto de ser quem sou.
Deito em cada dia que quer adormecer ao meu lado, no silêncio, velha e louca.

Venho de longe, e ainda demoro a chegar.
Me distraio em meus tropeços, uso álcool também por isso, distração, amor e fuga.

Sei que há o meu caminho, e ele tem água.
Desenhei barco no corpo para que eu tenha condução em mim;
e folha para balançar na terra também, não ser tudo sempre uma coisa só.

Sou mais que uma coisa só.

Aceito partidas.
Ensejo-me inteira.
Aguardo chegadas.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

lembre - se..


teu cheiro na tua roupa que virou minha roupa secreta sagrada

teu cheiro que virou meu cheiro,
eu sem querer lavar,
pra não levar de vez a lembrança do paladar -
- tua boca no meu beijo que fica procurando pra quem todo esse amor que tem


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Flores

(Pra ela. E ela)



Caminhava em frente, pra chegar ali, quando fui surpreendida, meus passos se desviando, ao tempo em que eu já sabia que não iria mais em frente.
É quando encontro ela. E ela.
É no desvio que aparece o amor.

Espalha-se a sorte, a palavra, o abraço, a cor do vestido, as mãos que balançam ideias;
ali, na minha frente, tão bonita.
tão bonita.

Fala-me do mundo.
Me ajuda a acreditar.

Retorno o caminho, guiada pelo mesmo cheiro que me tirou dele, a flor do desejo da vida que ama.
A vida dela.
E a dela.
E a minha.

À frente, o debate dentro de mim.
Esvoaço pensamento, entro na sala pelas escadas.

terça-feira, 16 de maio de 2017

por dias de cura


Parece às vezes que a gente adoece pra se achar.

Pra ficar quieta, parar a mente, dormir, descansar.

Ir aos infernos de dentro, afundar, esquentar, aprofundar.

Queimando a pressa do dia da semana,
queimando dois turnos de aula,
queimando as certezas e o vírus.

Nosso corpo, essa potência, quer florescer;
pra isso, nesses momentos, murcha, sofre, dói, geme, chora, aquieta,
até sarar.

Nem sempre a gente saca do que adoece.

Se é de orgulho,
de medo,
de saudade,
de culpa,
de raiva,
de preguiça (de viver),
de fim
ou de começo.

Pra tudo isso eles dão os nomes de 'virose', 'infecção', essas coisas que disfarçam o que a gente precisa saber da gente mesmas.

15 dias atrás mais ou menos a minha filha adoeceu, passou o dia inteiro sentindo dor no corpo/cabeça e dormindo. Eu deitei na rede e fiquei observando ela atravessar-se. Também fiz chá, do-in, inalação com óleo essencial, homeopatia de 1/1 hora (pra conter a sombra de ansiedade hipocondríaca dela). Mas o que mais me marcou foi dormir na rede enquanto ela dormia na cama ao lado, e olhar pras minhas dores com c-alma.
Sentir que enquanto ela se atravessava, eu entendia mais de mim, no silêncio e no recolhimento.

Hoje o meu filho começou na madrugada a vomitar. Está doente. Passou o dia deitado, falou pouco, comeu pouquíssimo, resguardando energia. À tarde falei pra ele o que havia ouvido na sexta à noite, falei como uma citação, não como uma verdade minha: "que a maior medicina é meditar". Lembrei disso porque acho que a doença leva a gente a meditar, involuntariamente. Que pode se transformar em vontade voluntária. Estamos aqui os dois/as duas, 'dia das mães' em trânsito, o corpo dele quente, o meu em acompanhamento. Quanto ele dorme mais profundamente, quando vai à procura de sua cura em profundos dentro de si, eu abro uma cerveja. Para ler um texto ou dois na internet, vivências maternais em sua maioria.

Outras mulheres escrevem e me inspiram.

Para ele, homeopatia, do-in, reflexologia nos pés, conversas sobre filmes. Pouca comida, mais líquidos, mais ainda horas de sono.

Ainda há várias revisões bibliográficas de mim mesma que quero fazer, espero que não sejam todas em estado de adoecimento. Mas sim, a vida tem me aberto outras perspectivas nesses momentos.