quinta-feira, 4 de outubro de 2012

território livre, amar


No dia que você nasceu
eu andava fantasiada pelas ruas
da minha casa
declamando teu nome que eu ainda nem sabia
te esperava - não sabia
te amava - não sabia

pra saber, te chamava: poesia


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

é lá


Arrumou o cabelo
o vestido
o dinheiro
o batom
o sorriso

esquentou o pão
a saudade
o corpo
a cama
as ideias
os vagares

destinada a esse abismo
que é o dentro.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

chegou antes da hora
mostrando mais uma vez que não sou eu quem penso certo o tempo
chegou forjando silêncio – como se eu já não soubesse como é..
preciso então dormir o tempo,
encostar pra longe o tumulto, o barulho, a multidão
porque, agora, o que preciso é de mim



quarta-feira, 5 de setembro de 2012

trecho rasgado

só que hoje,
para amar,
haverá uma pessoa que caminhe na minha poesia,
venha à minha casa
e boceje sua alegria no meu banheiro.
nada menos que o meu mundo,
é que tenho para oferecer


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

em mim, minha consistência, meu lodo, meu sólido



pedra também tem saudade

do tempo que era onda,
do mundo onde era sal.

pedra tem coração, ama.
quando vira homem, pedro. e aí esquece momentaneamente seus superpoderes. estranha escolha.

pedra no lugar de fora dela
com sua sabedoria, esperando.
a gente, gente, se ocupando de não perceber, de panos para o corpo, de livros para ler.
pedra esperando que a gente saiba o que ela já.

pedra gosta de carinho, como gente também.
mania de atirar a primeira, não precisa.
pega e guarda na casa, no jardim, no bolso. ou deixa solta, e com o olhar do afeto.

fico pensando na consciência da pedra. acredito! se pedro tem, porque pedra não?!
entendo pela pele e sua memória, outro conhecimento. aceito-me. sinto.
fico eu, sonhando pedra, lembrando. fica pedra, estática na aparência e nunca no mesmo lugar. movimento perspicaz de manter a imobilidade e, entrelinhas/entreterras, agitar-se.

em mim, minha consistência, meu lodo, meu sólido.
pedra pra dois, achada por quem ama
há dias que o amor me beija e eu sinto, bem de manhã, como um café quentinho
pedra pra dois, trazida por quem ama..
vou ao espelho, pego.. sinto o amor, de dois, de três.. o amor do mundo na pedra de mim.
pedra pra dois, dada pros dois, por quem ama..


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

passagem

Percurso de pensar no amor.

No verso da lista de supermercado, outras palavras, umas lembranças, certo lugar do corpo
Coração rabiscado entre laranja e ração do gato raul

E eu, rabiscando qualquer lugar qualquer pensamento, vermelho, amarelo, riso, pouco, coragem, minha guarda, meu pedaço..
Do meu porão, depósito dos guardados, sobem eles & elas.. de saudade a esquecimento, chegam como uma festa, ou um velório

Mas se a velocidade pediu sossego, sou em quem fico..
Depois, no sumo, na verdade do minuto, no vento do amor
Deito e delimito no chão o pouco da extensão que é o corpo de mim
Imaginária, a linha é leve e quer sair, quer ser mais do que sou só eu
Pego de volta, dou-lhe laço para que seja sorriso
Não sou muito, mas suficiência (paciência..)

Com o dente que resta, corto a ponta pra não deixar rastro
Para que não espalhem-se gotas por onde não queiras
mas que é certo aroma, rastro e esperança

Não finda o percurso,
não deixo de pensar,
não acaba o amor.

..Carlos Drummond de Andrade






segunda-feira, 23 de julho de 2012

sobre ser




a arte, feminina, o meio da flor, irrompe a dinastia feminina no meu braço esquerdo.
mulheres fortes, minando amor, em seus tempos distintos, sangrando a força da terra do mundo, rosa vermelha grafada nos ossos.
não as substituo. vivo-as em outras pessoas, a honra de pertencer a todos os tempos, vivos e mortos. um trejeito, um chapeu, um brinde, até um acaso.
por elas, eu. sigo em frente, mesmo que mire o chão. também vou pros ares, pros sonhos, pras noites.
trata-se do que conheço, e do que não conheci. do que dei nome e do que não sei como se chama. são fogo na minha perspectiva sagitariana, mas também são água, do choro à cachoeira; são terra, na minha base sempre tão relutante; são ar(es), pois com elas eu voo(u).
do lado esquerdo, onde eu assino meu nome, e tiro sangue, e preparo o alimento, e falo de amor.. desse lado, as mulheres que não param em mim, não cabem, não se objetam, nem se subordinam
não há posse suficiente para uma mulher. não há mais cintos, nem letras ininteligíveis.
nossos seios estão nas ruas, não na mão dos homens anti-proprietários, mas na nossa conduta despudorada e bela de sermos e estarmos onde e com quem quisermos!
nem uma só palavra me foi dita assim por elas, mas foram elas que me ensinaram.
e eu amo assim, acredito assim, admiro assim, respeito assim.
se não pode, não dance com uma. se dançar, saiba que é pra todos os palcos, porque o mundo requer autonomia, e LIBERDADE NÃO É CROMOSSOMO, é condição para estar aqui